06/11/2009

OS PECADOS DE CLARINHA


Clarinha volta da escola, despede-se do grupo alegre de garotas e segue sozinha, apressada. Olhos de gato brilhando no escuro, entre a árvore e o muro, ele ataca. Ela se assusta, corre, grita, livros e cadernos espalhados na calçada, ele a alcança pelos ombros, puxa e derruba, a força dos dementes, boca calada com a mão estúpida. Embaixo do corpo pesado ela fecha os olhos e chora, arranhada, machucada, invadida, rasgada. Ele levanta-se, ágil, recomposto, e some no escuro. A menina abre os olhos e procura, em vão, o agressor, a dor doendo fundo, soluços mutilando o coração.
"Mãezinha, me ajude, que será de mim?" A culpa é de Clarinha, que usa saia curta, mostra as pernas e coxas, o decote quase deixa os seios para fora, provoca os rapazes na escola e namora com um e flerta com outro. Culpa de quem não fica em casa, chega tarde da noite, assiste filme proibido, falta aos cultos, não respeita o pastor e não ouve os pais. Culpada é a menina que usa maquiagem, batom, passa a língua nos lábios e senta cruzando as pernas depiladas. "Castigo de Deus, filha". O pastor avisou, como um bom pai, aconselhou, visitou em casa, repreendeu e puniu com estudos extras de trechos da bíblia. "Minha menina, decorou a lição? Fale baixinho então, na orelha do seu bom pai, aqui bem juntinho".
O namorado freqüenta a mesma igreja, é moço que trabalha e estuda, tem cabelos aparados, usa calça cinza, sapatos pretos e camisa branca. Tem olhos tranqüilos e se empenha nos estudos bíblicos. As mãos suadas, brancas e lisas de trabalhar em escritório. Passeia de mãos dadas com Clarinha, janta em sua casa, senta no sofá em frente à sua mãe e fala das palavras de Deus com seu pai. Namora até dez horas, porque acorda cedo, e fica sozinho com ela por alguns minutos, encostados os dois no portão de ferro. Beija com a boca aberta, passa as mãos no seu corpo, língua no pescoço e seios e faz sexo em pé, apressado e medroso quando tem os olhos de desejo. Clarinha, nenhum ai. E ele diz que quer casar, pelo Senhor perdoa seu passado, e volta a ter os olhos tranqüilos. "Paizinho, não quero, não gosto".
O menino da escola fala palavras bonitas, passa as mãos nos cabelos de Clarinha, bebem refrigerante na cantina, estudam juntos para as provas, gostam de música, lêem romances e poesias e faltam à aula e vão ao cinema. O braço descansa sobre o ombro dela, mão tímida procura e encontra a mão oferecida, a boca se abre, já são namorados e se apertam e trocam carícias, as mãos se soltam mais e Clarinha tem medo. O menino tem os olhos fechados. "Mãezinha, me perdoe a fraqueza". Tem que decorar todos os hinos, cantar com o coração, para tirar do peito os pecados cometidos. Deus há de perdoar a filha. Na igreja, canta os hinos para o pastor. "Senta aqui, filhinha, ao meu lado, canta baixinho". O ouvido colado à sua boca.
Ah, o professor, falando de letras e livros, de poesias e sonhos. Os cadernos repletos de frases de amor e versos impossíveis, cantando os cabelos brancos, a magreza solta dentro da camisa, a barba mal feita, a sabedoria dos que não se dizem namorados, mas amantes. O sono diurno denunciando a noite mal dormida, a lição por fazer, línguas vorazes, odores e sabores desconhecidos. Ele tem os olhos distantes. Culpada é Clarinha e seus livros profanos. "Paizinho, por que"?
O ônibus da igreja segue rumo à praia, os fiéis cantam hinos, o pastor comanda. O moço ao lado roçando a mão na perna de Clarinha. Sol, mergulho, areia e passeio na costeira. Falam de amizade e dos caminhos da salvação, dos sacrifícios que se impõe aos que querem ser puros. Entre árvores e pedras, os sussurros e arranhões. O moço é bruto e tem os olhos de tristeza. "Mãezinha, e agora, o que fazer?"
O pastor em visita à menina. Tem obrigação, por ordem divina, de constituir família. Em sonho recebeu a mensagem do Senhor, amar e respeitar Clarinha como sua esposa e à ela mostrar o caminho da luz. Deus escolhe caminhos estranhos, deve-se obedecer a vontade d’Ele, perdoar os pecados da criança e torna-la pura com o casamento e a maternidade. Abençoada união. "Ai, paizinho, que Deus me ajude".
Roupas que escondem os desejos, mãos que não se tocam, corpos que não se apertam, braços que não abraçam. Nas bocas, orações substituem os beijos. Às vezes, treme cantando hinos junto ao ouvido, voz rouca. Não se namora até casar? Nos caminhos de Deus ninguém anda de mãos dadas? Provação. Os pecados serão esquecidos, perdoados, o pastor é bom homem. Culpada é Clarinha.
O casamento com festa discreta, o rebanho entoando cânticos, a perdoada sorrindo triste. Os caminhos de Deus levam à casa do pastor, fundos da igreja. Clarinha quer acender a luz, ele não deixa. Ela se assusta, os olhos de gato brilhando no escuro.

3 comentários:

  1. Realidade e ficção em doses certas.
    É bom encontrar texto assim.

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  2. mário...
    teu estilo narrativo é excelente...
    parabéns e...
    beijos no coração...

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